Eu realmente não conseguia entender a razão de os meus livros estarem se esvaindo a cada página virada, tornando-se cinzas que serpenteavam pelo vazio do meu quarto até o teto, onde se perdiam por entre as frestas do telhado. Na minha boca, uma substância arenosa dançava pela arcada dentária enquanto eu cuspia sangue, mas o líquido que escorria era negro, como a cor dos meus cabelos, que agora davam lugar a mechas que iam de um prateado bonito a um branco pálido, da cor das páginas dos meus livros, agora sem palavras encravadas. E junto com as palavras ia minha voz. Eu que nunca precisei de mais nada quanto o fiz de meus olhos, que se implodiam em trevas deliciosamente inquietantes. O espelho já não revidava: já não via o viço sorridente de um homem, mas, pensando bem, havia um rodopiar incansável de cinzas que buscavam o céu.Casa de Chuva
Num dia chuvoso em casa, nado melhor.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
Fantasmas no espelho
Eu realmente não conseguia entender a razão de os meus livros estarem se esvaindo a cada página virada, tornando-se cinzas que serpenteavam pelo vazio do meu quarto até o teto, onde se perdiam por entre as frestas do telhado. Na minha boca, uma substância arenosa dançava pela arcada dentária enquanto eu cuspia sangue, mas o líquido que escorria era negro, como a cor dos meus cabelos, que agora davam lugar a mechas que iam de um prateado bonito a um branco pálido, da cor das páginas dos meus livros, agora sem palavras encravadas. E junto com as palavras ia minha voz. Eu que nunca precisei de mais nada quanto o fiz de meus olhos, que se implodiam em trevas deliciosamente inquietantes. O espelho já não revidava: já não via o viço sorridente de um homem, mas, pensando bem, havia um rodopiar incansável de cinzas que buscavam o céu.Feriadão
Resolvi voltar com o blog, já que tive mais tempo no feriadão da Páscoa. Feriadão é a cara do Brasil, que já nos presenteou com vários só este ano. Daí eu me pergunto: porque tanto feriado? Ninguém comemora os feriados da forma que tem que ser mesmo! A cultura/tradição sempre perde espaço para a bebedeira e os lepo-lepo's da vida! No entanto, nem eu fico de fora: não que eu tenha bebido ou dançado "tosquices" no feriadão; mas esse hiato temporal só me rendeu comida, estudo e algumas saídas com amigos. Quer dizer: o sentido real da Páscoa e até do dia de Tiradentes passou batido para mim. Às vezes até penso que bom mesmo é que não houvesse feriado, mas daí eu lembro que, com feriado ou sem feriado, sempre há o que fazer e, então, eu me arrependo e penso (sobre esse aspecto em particular!): que bom ser brasileiro!
domingo, 19 de janeiro de 2014
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Canvas urbana
Quando atravessava a Aguanambi, hoje à tarde, segui em direção à 13 de Maio e de repente algo me chamou a atenção. Eu falo de algumas figuras grafitadas na parede de um prédio que ladeia o viaduto Pontes Vieira-Aguanambi. Nem reparei quais imagens eram, mas captei, do canto de minha visão, uma sequência de cores que me deram a sensação de estar em uma viajem à velocidade da luz, estilo 2001. É interessante quando você atravessa uma faixa de pedestres sob um viaduto (um cruzamento conturbado, diga-se de passagem) e depois se depara com uma arte dessas. Há, no entanto, quem não considere tal coisa arte e até quem compare isso com pichação (arte?), mas who cares? O importante é destoar, pintar a cidade de cores vivas e expor a criticidade através do entretenimento. Ainda lembro de uma frase que once upon a time via-se grafitada em um muro da UFC (mas precisamente aquele das casas de cultura). A frase em questão dizia: "loucos, vóis sois a luz do mundo", ou coisa do tipo. Mas "de gênio e de louco, todo mundo tem um pouco", né assim que dizem? Enfim, que a nossa loucura desperte a genialidade em formas (coloridas ou não) na nossa cidade. Afinal, como Albert Einstein (gênio ou louco?) dizia: "a imaginação é mais importante que o conhecimento."
O ócio é osso
Não é a toa que "ócio" soa igual a "osso." Ócio é osso! Mas por que? Nunca entendi o uso de "osso" na expressão "(algo) é osso!" Por que desvalorizar algo que sustenta o corpo? Na verdade há muitas coisas que sustentam o corpo, cujas excelentes propriedade são subjugadas pelo nonsense que muitas vezes acabamos por exteriorizar linguisticamente. Quem nunca ouviu, por exemplo, um "porra, cara, tu é foda!"? Foda também não é algo super importante para a nossa sobrevivência? Diria mais, para a nossa própria (razão de) existência? Para a nossa multiplicação ("we don't need to multiply"?)? E o que falar da porra!? E o que dizer daqueles que usam o nome de Deus em vão? Esse pessoal que não pode testemunhar uma desgraça e grita "MEU DEUS!" Será que estão falando de Shiva, o deus hindu que destrói? Mas isso tudo é muito interessante, pois, a parada é tão nonsense de um jeito que esses três elementos vitais aqui já mencionado (o quê? Você é ateu? Então são dois, para você!) acabam por serem redimidos/reconhecidos por outras pessoas. Exemplo: um pai ao ver seu filho nascer, pode ficar tão alegre e gritar "MEU DEUS!" para que todos no hospital saibam que o acontecimento símbolo do natal acabara de acontecer alí, em pleno mês de maio. Outro exemplo é bastante feliz, pois vem da música da roqueira baiana Pitty, que canta que "você me adora" e "que [você] me acha foda." Quer dizer, adorar e achar foda também são sinônimos, né! Por fim, nada melhor do que aquelas vezes que você torce por um vilão de filme/série/livros/etc, porque ele é tão foda, que você exclama "meu Deus!" quando ele pratica um ato de infinita maldade e depois você vira para o seu amigo, os dois rindo, e diz: "porra, mah, esse cara é osso!"
Shitted hearts
O blog começa tão inusitado quanto este post, mas acho que este espaço serve para publicar coisas do tipo mesmo. Estava eu a ir ao banheiro, quando notei que meu papel higiênico era (na verdade ainda é) decorado de corações. Achei a incidência de tal fenômeno no mínimo instigante e começei a questionar comigo mesmo o que levaria uma pessoa a pôr coraçõeszinhos na superfície de rolos de papel higiênico. Devo dizer que não sei nem ao menos qual a marca do papel higiênico em questão, mas, seja ela qual for, acredito na bizarrice que é decorar algo assim com corações. Bem, ao menos os dois (o coração e o papel) têm funções importantes não é? Algo mais a ser relacionado? Não sei, mas algo me veio em mente, enquanto estava a indagar sobre a relação aqui questionada. Uma música antiga, dos Tribalistas, me veio em um fluxo de memória que chegou e ficou. Eu gosto dos caras e quando me lembro de qualquer música deles, costumo cantá-las em minha mente por um bom tempo até esquecê-las de novo. Pois bem, a música em questão é a que diz que "o amor é feio." Acho que o nome da música em si é "o amor é feio." Em um trecho da música aqui discutida, os Tribalistas cantam que "o amor é sujo" e que ele "tem cheiro de mijo." É uma música bacaninha, a voz do Arnaldo Antunes é foda, mas o legal de tudo isso é o coração "bordado" no papel de higiênico do meu banheiro. Será que os Tribalistas tinham um desses no estúdio?
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