segunda-feira, 21 de abril de 2014

Fantasmas no espelho

Eu realmente não conseguia entender a razão de os meus livros estarem se esvaindo a cada página virada, tornando-se cinzas que serpenteavam pelo vazio do meu quarto até o teto, onde se perdiam por entre as frestas do telhado. Na minha boca, uma substância arenosa dançava pela arcada dentária enquanto eu cuspia sangue, mas o líquido que escorria era negro, como a cor dos meus cabelos, que agora davam lugar a mechas que iam de um prateado bonito a um branco pálido, da cor das páginas dos meus livros, agora sem palavras encravadas. E junto com as palavras ia minha voz. Eu que nunca precisei de mais nada quanto o fiz de meus olhos, que se implodiam em trevas deliciosamente inquietantes. O espelho já não revidava: já não via o viço sorridente de um homem, mas, pensando bem, havia um rodopiar incansável de cinzas que buscavam o céu.

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